correspondência incompleta

quarta-feira, outubro 08, 2003


Honey baby,

Claro que conheço a versão da Gal, a letra é do Waly com o Jards né?! Sabe, por esses dias, me bateu uma puta curiosidade sobre o Waly e o Torquato Neto(especialmente), eles são ótimos, o Torquato é ótimo. Procura sobre ele. O atrativo biográfico (infelizmente), é que ele morreu cedo, um dia depois do aniversário de vinte e oito anos. Voltou de uma festa com a mulher — que foi dormir —, trancou-se no banheiro e ligou o gás. Foi encontrado morto no outro dia pela empregada. Deixou um bilhete de despedida que dizia: "Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega!". Ah, temos que parar com esse fetiche mórbido!

- escuto cazuza sem parar -

Então nêgo, comprei o Italo falando da anac, e ele faz certinho. Sempre via todo mundo reclamando que acabou se falando mais da anac-personalidade do que da anac-escritora, pois pelo pouco que li do livro, ele faz tudo certinho, fala dela como escritora, do jeito como escreve, dos textos que vão além dos simples versos, da poeta-que-pensa. Ainda faz o background da situação, do que rolava na época, da ditadura, dos ‘malditos’...Só fica meio muito brega quando começa a falar dela, fica querendo soar poético, fica até constrangedor. Sabe, comecei a achar que essa coisa de ir sempre pelo lado da intimidade é bobagem. Sou totalmente biográfica, preciso sempre saber da vida dos escritores que gosto, mas tem que olhar mais adiante, não dá pra ficar só procurando intimidades nos textos, tem que ir mais fundo, procurar na linguagem, na literatura, o que se está comunicando ali. Se você fica procurando só as referências, os affairs, amigos, nunca se inicia. A anac faz você cair como patinho, mas pra depois levantar a cabeça e ver como é engraçada essa coisa de brincar com a intimidade. E o Pessoa já dizia isso há muito tempo, e eu nem prestava muita atenção, até repetia algumas vezes, mas sempre meio desleixada. Não há mesmo como o Pessoa. Pois a Ana adora isso, faz texto, diz que é diário, faz texto, diz que é carta. E você lá, como um otário, tentando achar links e histórias passionais. E eu nem queria que fosse assim, anac-rockstar, que você vira fã e precisa ter todos os cds, fotos, fofocas... mas ela me consome tanto, que eu não consigo que não seja assim. Mas agora decidi, quero ser como o Donne, um que sabe.

E pára com essa história de querer cartas escritas de caneta em folhas de caderno, ora, que é isso, cherie? A tecnologia é ótima, vamos aproveitar.

Ainda não to bem. Não consigo fazer coisas muito sociais-burocráticas. Não consigo continuar a auto-escola, não consigo ligar pra marcar hora, não consigo ligar pra dentista, não consigo mais fazer esse tipo de coisa. Tava tão ruim, que nem ligar pras amigas eu tava conseguindo. Essa semana as coisas melhoraram um pouco. Saí no sábado com vocês, na terça e na quarta com M. e B.. Descobri uma coisa bem óbvia, depois do sábado fiquei pensando sobre isso, dias bons são só dias bons, eles não dão garantia de nada, quando o dia acaba, a animação, a alegria acaba, você fica sem saber o que vai ser do próximo dia. Já dias ruins não, eles acabam, mas aquele gostinho ruim ainda fica por mais alguns dias. É tão óbvio isso, mas é dureza se dar conta. Eu não to agüentando viver de pequenas coisas. De pequenos momentos bliss. Não ta dando pé. Ando tão maluca, não consigo me entender direito, ao mesmo tempo que não quero fazer nada, quero ficar em casa olhando pro teto, eu quero também sair e movimentar a cidade, criar alguma coisa, inventar um lugar onde as pessoas possam ir e ver coisas legais e trocar informações, e mostrar o que andam fazendo, poesias, curtas, longas... eu quero me mexer, quero produzir, porque não acontece nada nessa cidade portuária, ou melhor, tudo que acontece ta ligado ao mangue.bitch, ou as velhas personalidades da cena. Isso é um saco! Raspas e restos de mangue não me interessam e eu já to cansada de tanta babaquice, tanta caretice, dessa eterna falta do que falar. Comentei isso com o D., e ele me contou aquela história ótima sobre a turma dele, que me deu mó gás pra fazer alguma coisa. Preciso, preciso e preciso! E a nossa turma é uma merda(!), pessoas geniais e sem iniciativa nenhuma. Magina se todo mundo se mexesse? Dias atrás falei com J. sobre isso, ela se queixa da mesma coisa, e ainda da inércia dos nossos professores universitários, que não produzem! Ninguém produz, shame shame... ninguém publica nada, só estudando os velhos cânones, e reproduzindo. Pra merda com isso. Eu quero opinião. Aliás, parece que todo mundo anda louco por isso, né?! Tanto é que o blog de Mone fez tanto sucesso. Causou tanta polêmica. Pode isso? um simples blog, causar tanta repercussão, a redação do JC toda, lia. A nossa estimadíssima Professora Doutora(rá), falava dele nas aulas de mestrado(!!). Isso é bizarro, é loucura. Tudo porque a gente não tem aqui quem dê opinião. Mó vergonha. Vamos fazer alguma coisa, vamos?!! Eu quero uma revista, já te falei. Quero alguma coisa parecida com as revistas Opinião e Beijo. Escrever sobre cinema, música e principalmente literatura. Falar também sobre comunicação, sociologia e assuntos acadêmicos, mas de uma forma bem leve. Na verdade, eu quero mesmo é o que rola por trás dessas revistas. Muita muita muita discussão intelectual (pq não?!), reuniões intermináveis e esse tipo de coisa. Porque não quero só aquela coisa virtual, que cada um escreve seu texto, manda pro mail de alguém, e pronto(que é o que acontece nas revistas virtuais), eu quero o backstage! Eu preciso das discussões!

Aiiii, não consigo gostar desses novos-escritores, que você e F. falavam. Peguei os links e dei uma olhada. Achei bem bobão, conversei com F. sobre isso, eu dizendo que era uma porcaria, ele dizendo que não era tão ruim assim. Oquei, não é tão ruim, mas é bobo, bestão, sem maturidade alguma. Como falei, eles são tipo os filmes do Kevin Smith, legais, inteligentes, cheios de sacadas pop, mas muito bobões, sabe? Quero uma literatura mais densa, mais, sei lá, adulta, crítica, sedutora. Fico puta quando começam a colocar palavrões no meio do texto, quase nunca soa natural, sem contar quando eles tentam ser sexys, mas sem classe, acabam escrevendo só um monte de putaria sem cabimento. Não fica henry miller ou anaïs, fica outra coisa qualquer, mais próximo de continhos da playboy. Eles também são jornalistas-ou-técnicos-de-informática demais. E precisam parar de querer soar como Bukowski, Fante, Burroughs e até o Nick Hornby, eu heim. Cresçam e apareçam! Fico agoniada com esses novos-escritores, mas pelomenos, eles tão produzindo.

E as minhas aulas que não começam, eu to ficando maluca. Eu quero estudar Antonio Candido, aliás, acho que essa semana já vou na Imperatriz e compro. São dois livros numa caixa, um é uma compilação de textos dele, e o outro é uma biografia. Por enquanto só me interesso pelos textos, mas vou pegar a caixa porque vai que... Quero estudar, deeeseeespeeero!! Preciso de um grupo de estudos também, eu sempre preciso de um grupo de estudos... mas é que eu gosto da interação, da troca de informação. É o melhor jeito de aprender as coisas. Quero movimento se não vou ficar cada vez mais em casa, trancada, e não saio mais nunca. E vai ser horrível. não gosto de ser anti-social...

Oh well..
Beijo pra você, benhê.
Vamos fazer alguma coisa, que além de ser pro bem geral dessa
nossa geração (rá), vai te trazer energia boa e fazer tu parar de pensar em
você-sabe-quem..
Certo?
Certíssimo!
Nafum!

(11(!!)/09/03)

ps.: Vi o documentário sobre poesia marginal no STV, e achei péssimo. Muito superficial, muito rápido. Chacal ta parecendo aqueles coroas cariocas que jogam futebol de areia com o Romário. E tem lá o Cep 20000, que por enquanto acho chato, mas que pode ser uma boa. É que poesia pra mim é uma coisa quietinha, pra ler só em casa, não é um espetáculo. Mas se tiver esse tipo de coisa no Café do Parque, eu quero ir!

ps2.: Ei, sobre as cartas-pra-ninguém, não pode ser prosa poética, tem interlocutor sabe? Você ta escrevendo pra alguém, pra uma pessoa só, mesmo que você não saiba exatamente pra quem. E prosa poética não é assim. não precisa ter um interlocutor, pode até não comunicar. Sei lá, não é prosa poética.

ps3.: Também não entendi direito o bilhete do Torquato. hah

Ps4(ufa).: Leia o Mário e o Bandeira! Isso é sério, é importantíssimo! Qual o problema guri, oq o colégio fez com sua cabeça?


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