correspondência incompleta

quarta-feira, maio 14, 2003


Dearest,

Talvez você estivesse certa, ou melhor, te interpretar errado foi ato falho meu. A questão não é querer ser genial full time, isso até passa pela minha cabeça, mas a questão é o estilo. Tu fala com tanta certeza sobre o meu estilo, mas ando desconfiando que é tudo consolo, ou pior ainda, que eu te fiz pensar assim, meio que enganei, forcei, sei lá.. que estilo meu bem? Eu sou um furto! Com todo efeito! Eu incorporo tudo, sou só citações... e se isso é só característica neomoderna ou pós, eu não sei, mas faz tempo que não me sinto original. Então o piti foi insegurança mesmo, do tipo ‘nossa, então ela sabe que eu sou uma farsa’. Admito, claro, que é um drama só.. mas como não?!
Roubo tudo que é espelho.. frases, palavras, parágrafos, ritmos, livros inteiros.. estilos, vidas, idéias, sentimentos... não tenho mais pudor nenhum, nada é meu, nada é nacional! Eu sei que não é bem assim, mas ando má comigo. Agora estou sempre atrás de insights, me sinto uma farsa, de verdade. Tenho vontade de saber opiniões das pessoas sobre os escritos, e ao mesmo tempo uma insegurança excessiva, angustiada.
Eu queria ter um interlocutor fixo, ser bem melosa e acabar todos os escritos com ‘eu te amo’. Mas isso tá tão distante.. tenho vários interlocutores porque nada é estável e eu só tenho casos, e aí no fim das contas acabo ficando sem nenhum, e escrevo páginas e páginas de um narcisismo nauseante sem saber pra quem. Odeio não ter um personagem principal, quer dizer, odeio quando me faço de personagem principal. Parece análise, onde eu sento e saio falando tudo, com ou sem mistério. Ando me referindo como se fosse um problema literário.. acho que é só mesmo um jeito de esconder as coisas, você sabe que é solidão. Falo que preciso de interlocutor porque cansei de dizer que preciso de alguém, isso sempre soa meio chato...
E eu saio falando e nem pergunto como você está. Você está? Responde porque tu sabe que fico maluca com essa história de feedback me conta dos estudos... eu descobri que tenho alguma paixão misteriosa por Lukács. Tava reparando, todos os meus livros que falam dele, citam, sei lá.. o nome aparece sublinhado. Tu sabe que sempre quis ler, mas eu não sabia que era uma coisa tão obsessiva. Devo pegar ainda essa semana a ‘história da consciência de classe’, apesar de saber que eu devo largar no meio. Você sabe, não tenho mais tanta paciência pra marxismos. Mas bem, eu quero matar minha curiosidade, e saber duma vez porque ele irritou tanto os ortodoxos. Sabe que eu tenho preconceito com esses marxistas que levantam bandeira? Devia ter é vergonha de ser blank generation total, sem nenhum ideal, ou cheia deles mas sem conseguir me concentrar em nenhum. I´m so out of focus. Queria conseguir realizar todos os nossos projetos mirabolantes... ando me sentindo inútil também, dormindo demais, com preguiça demais.. eu espero que seja só uma fase, se virar característica eu me mato!
Bem, então, me conta tudo ta?
Ando com saudade!
Uma loucura todo esse questionamento pra saber se to ficando louca ou se tenho mesmo alguém pra escrever.. deve ser sintoma de loucura mesmo, inventar correspondentes...
Que seja.
Loucura chiclete e som!
(super cretina)

beijo.

PS.: recebeu o disco e o livro? Me fala oq achou..


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