correspondência incompleta

quarta-feira, abril 09, 2003


Honey,

Quando a conversa fica pelo meio, manda um e-mail... é a nova máxima heim?! Mas eu vou continuar assim mesmo, sem teclinha de send...
E então, vinha reclamando muito do meu tom de diário, me achando stupid stupid stupid porque não consigo escrever nada que não seja assim, pessoal, umbiguista, narcisista, sem importância... ando me jogando na cara sabe? Tipo : ‘escuta aqui, tua dor não me importa. Estou cagando montes pras tuas memórias, pras tuas culpas, pras tuas saudades. As pessoas estão matando, morrendo, mandando matar, enlouquecendo, explodindo, se jogando, rezando, se fudendo e você fica aí pelos cantos choramingando o seu amor perdido. Foda-se o seu amor perdido. Foda-se esse rei-ego absoluto. Foda-se a sua dor pessoal, esse seu ninho mesquinho e fechado’, ando me repetindo isso again and again.
Queria escrever um romance bem grande, com histórias que se cruzam, mistérios, tipos esses que nossas mães lêem.. ou grandes aventuras très Jules Verne... mas então fui pra cama sem sono e acabei remexendo nos livros... peguei o Ovelhas Negras... tinha parado de ler tudo, andava ocupada com a faculdade, Habermas, Frankfurt, Eco, Jameson, Baudrillard... isso toma muito tempo, e acaba mais que um dia de trabalho numa mina de ouro onde não tem mais ouro. Mas continuando, peguei o Ovelhas Negras, abri em ‘lixo e purpurina’, ri do título afetado, e achei tudo muito legal... achei o tom de diário bem liberta-dor, sem brincadeira! Liberta dos clichês, da breguice, você pode falar o que quiser do jeito que quiser, e ainda pode inventar, afinal, não é só de realidade que se faz um diário, certo? Aliás, é exatamente o contrário. Então voltei a ficar feliz com minha mediocridade. Falo isso sem ataque nenhum, sem crise nenhuma, ao menos não aparente. São só constatações. Feeling stupid! Ando reclamando muito, reclamo até da minha cabeça, que anda uma bagunça.. sabe, ela não tem gavetinhas específicas para cada coisa, com um nome colado na frente, minha cabeça é um armário de adolescente-cabeludo-que-gosta-de-nirvana-e-ta-aprendendo-a-tocar-guitarra-escutando-sonic-youth(referências gratuitas, delícia de narcisismo idiota)... ou seja, uma bagunça! Cheia de roupa suja e velha e rasgada e um monte de coisa que não precisa mais estar lá... eu dava tudo por uma fachina, e por um armário novo, cheio de gavetinhas. Eu queria ser capricorniana!
Mas então, voltando ao Caio, como esse menino consegue botar essa violência toda? Fiquei com o ‘Creme de Alface’ na cabeça o dia todo. O barulho, a violência, a gratuidade, a sujeira, o sol, a amargura... é um dos melhores dele que eu já li... e continuo dizendo que ele é genial! E ainda, ele bebeu naquilo tudo também, Mansfield, Woolf, Doris Lessing... quer mais o quê? Escuta, mais uma vez, corre pro Caio!
Agora um beijo que tivesse um blue pra você, nosso chá das cinco acabou, tenho que terminar o trabalho sobre o ‘ponto de mutação’, aquele filme que já te falei milhões de vezes, e já cansei de te mandar alugar, e você nem nada. Então é isso. não falo mais.
Be nice sweetheart.




Dear,

A novidade é uma carta impressa. Cansei um pouco da minha letra e de escrever... mas deve ser a única assim, sempre acho um pouco frio. Então, como anda a Paraíba? Por aqui vai tudo bem, aquele tudo bem sem graça, de quem tem uma vida parada. nada acontece... nenhuma paixão, nem sombra... nada de pessoas novas... nada de nada... tédio! Quase não saiu, mas também não existe lugar pra ir... ando só lendo... Caio Fernando Abreu, Ana C., Márcia Denser... e não tenho ninguém pra conversar... as pessoas não lêem!!! As pessoas são chatas, óbvias... se surge literatura na mesa, gira em torno de Drummond ou de ‘abril despedaçado’... ou até do Pessoa... mas mesmo assim... não parece que lêem o Pessoa, ficam só na superfície, não conseguem chegar na metafísica ou no sentimento... só consigo falar de literatura(e ainda assim, de leve) com um amigo que gosta do que eu gosto... do desbunde. Gosto quando começo a citar Ana C. e ele continua... é empolgante. Tem feedback sabe? Com as outras pessoas só eu falo... e elas escutam caladas, a indiferença me mata... E também todo mundo parece andar meio ocupado demais... faculdade, namorados, trabalhos, festas... eu não tenho nada... no máximo aulas de auto-escola que começam semana que vem... o drama é: preciso conhecer pessoas novas!
Sabe essas coisas não me incomodavam... mas agora estão insuportáveis... eu tava indo bem, depois da paixão, ou amor, ou sei lá o que foi aquilo... e depois do mal estar... da dor mesmo... eu fiquei bem, com tempo pra mim, pra faculdade, pra estudar... mas cansei, cansei de só ter eu, cansei de não ir ao cinema porque não tenho com quem ir, todo mundo já foi com os namorados ou sei lá o quê... sabe, ficar só é muito bom, e eu sou a senhorita independência, adoro ficar só... mas passou do tempo... eu queria a paz de viver só.. mas é impossível...
O tempo anda quentíssimo, e às vezes chove... não existe nada melhor que o barulho da chuva caindo, e o vento entrando em casa fazendo aquele barulho meio arrepiante... adoro deitar no chão e escutar Satie lendo um bom livro... aliás, ando com um grande problema, não consigo mais ler romances... ando com o mal da pós-modernidade... coisas rápidas, velocidade, contos e contos e poesias rápidas mas certeiras... ritmo. Só literatura rocknroll, que fuma e transa e fala putaquepariu! Mas nada de romances... deve ser alguma coisa errada com minha concentração... o último que tentei foi ‘A Peste’ de Camus... e nada feito, parei na metade... logo com o Camus... que eu era apaixonada.
E mais, meu bem, o que eu faço com minha vida? o mesmo dilema... jornalismo ou letras, ou os dois? Claro que tudo caminha pra letras... mas não quero deixar de estudar comunicação... é interessantíssimo!Habermas é genial! E Althusser e até Adorno é legal, apesar de meio ‘desatualizado’. Espero conseguir fazer links em letras pra estudar esse pessoal. Olha curso particular não presta, aumento todo ano! Impossível... e movimento estudantil não existe mais... desmoralização total... jornalismo na Católica não tem centro acadêmico, um horror... tamos tentando montar uma chapa e fazer eleições... mas passamos nas salas e as pessoas riem de nós... é uma merda.
Viu ‘As Horas’ já? Se não viu, vamos ver juntos. é um filme feminino, extremamente! uma porrada de delicadeza. A Virginia já é demais... ando com vontade de ver ‘O Pianista’ também... entrei numa de escutar piano. To ficando maluca, não existe som mais bonito e triste! É irresistível e perigoso. Für Elise, do Beethoven é uma porrada! Ela vive no repeat, mais as gnossiennes e gymnopedies do erik satie, que é minha mais nova obsessão! Ele é genial, meu bem. Genial! E faz o som mais triste do mundo! Angustiante... cai em cima de vc... e quando vc não agüenta... chora e chora e chora... e eu nem tenho chorado muito, ainda na fase seca, que pensei já ter ido embora, mas só tinha mesmo dado um tempo. Ando fria, sem sentimento... preciso juntar minha solidão com a de alguém e fazer uma coisa bonita. Preciso achar uma moça que diga que sou bonita e não vive sem mim... preciso me ver através de outra pessoa, uma que me ame mais... ser o the more loving one é muito perigoso... e eu não ando muito aventureira... a merda da federeal parece que vai entrar em greve de novo, ou seja, sem chance pra conhecer gente nova já que eu também não saiu de casa... e mais a frustração de começar mais tarde ainda o curso. só porque eu mal posso esperar...
Minha vida anda entre o estudo e a preguiça de fazer qualquer coisa, e acordar tardíssimo... isso não é saudável! Até o estudo me deixa mal vezenquando... sabe, estudar o homem é difícil... e estudar o homem de hoje é uma tortura... é como me procurar em cada parágrafo... é arrazante e ainda assim extremamente empolgante.. é a velha máxima que ainca cai perfeitamente : ‘o que me alimenta me destrói’!
Bem, então de volta aos estudos!
Estou bem. Penso em ti. Saudades.
Take care
Be Nice


(16/03/03)

ps: me conta como vai a história passional com DDD... ainda acontece? Esquece ela, meu bem... só amores possíveis.. nós precisamos de pele..de cheiro... de calor.. de noites e noites... esquece a paixão por telefone meu bem... ela só te faz mal.



Acredite, são ainda ecos da discussão. Althusser ficou mesmo na minha cabeça. Falávamos de aparelhos ideológicos do estado, e ‘erramos’ pelomenos duas vezes quando colocamos que a mídia era, agora, o principal aparelho ideológico do estado.
A escola, como falávamos, essa ‘nova’ escola, vazia, tomada pela razão instrumental, que só pensa em passar os alunos no vestibular, faz exatamente o que as escolas que pregavam os valores familiares, morais e religiosos, faziam na modernidade. As duas asseguram a reprodução das relações de produção... o que não levamos em conta, é que a sociedade mudou! Tão óbvio! Os valores que precisavam ser passados para garantir as relações de produção da modernidade, eram exatamente esses, o valor da família, da religião, da educação, moral, nação... só que agora, na ‘pós’, os valores mudaram, além desses valores, o que precisa ser passado também (‘também’ porque a pós é um emaranhado de tendências, milhões delas..das mais variadas possíveis...) são os valores da sociedade de consumo, que transforma tudo em mercadoria, e é isso que as ‘novas’ escolas passam. O ‘conhecimento’ é vendido, e, como toda mercadoria, tem prazo de validade – o vestibular. Um grande exemplo disso são as aulas de biologia. Grande parte da biologia que aprendemos no colégio está errada, lembro perfeitamente dos professores de biologia dizendo que os que vão fazer saúde, vão ter que deletar a maior parte das informações captadas, e aprender tudo de novo, os que não vão pra saúde, é só deletar mesmo, e depois, se precisar pra alguma coisa, é só comprar de quem ‘aprendeu-de-novo’. Isso lembra muito indústria cultural... Adorno... toda a crítica de Adorno..
Mas sim, a outra coisa que não levamos em conta, é que não existe, agora na ‘pós’ AIEs principais, mais importantes, ou sei lá oq... tudo faz parte, tudo conta, tem a mesma relevância... tudo é relativo, lembra ?! nada mais é tão certinho como era... nada mais é objetivo, concreto... sabe?! Tais entendendo? To falando tudo vomitado... sem conseguir por as coisas no lugar... foi um insight... e pronto. Mas assim, não é assunto encerrado não... isso é só uma das coisas que consigo ver... agora mesmo, vem vindo na minha cabeça uma outra teoria que destrói tudo que eu acabei de construir... mas essa eu ainda não consigo explicar... e sim, outra coisa, ainda não me sinto segura falando disso e dando como exemplo as coisas que acontecem no Brasil.. sei lá...às vezes penso que não há país mais ‘pós’ que o Brasil.. não acha não? tem de tudo aqui... tudo de cultura, tudo de identidade... aqui tem a modernidade, tem ainda o barroco, tem até feudalismo e escravidão... mas é tão misturado que me complica toda... anyway... êta assunto sem fim!
E no grupo de estudo tem mais...

cuida.


segunda-feira, abril 07, 2003


...


Home